quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Prólogo II: Os Olhos Cegos da Águia


Engraçado como a vida nos dá o que queremos, mas não da forma como pedimos... Eu sempre quis ver o mundo, mas o mundo pra mim sempre foi o monastério, quando o mestre Anshin Sagashi disse que eu precisava "ver o mundo" eu chorei, não na sua frente claro, não queria molhar o lenço que protegia meus olhos, ou como eu sempre dizia, protegia o mundo deles. É claro que com o passar dos anos a maior parte dos monges vão abandonando o monastério para disseminar o pouco que aprendemos e também aprender mais sobre as coisas do mundo, mas também há os que preferiam ficar e treinar e preparar os novos "disseminadores".
  Anshin me ensinou tudo e eu sempre soube que não seria útil para o monastério, mas também nunca imaginei que seria útil mundo afora.
Pensei que sair do monastério era um castigo, por querer utilizar meus amaldiçoados olhos como se fossem comuns.
Juntei o pouco que eu tinha e sai do monastério sem ter ao menos a chance de olhar para trás uma ultima vez, não entendia as escolha de  Anshin , mas respeitei e sai em busca de ver o que sempre o que desejei abaixo daquele lenço. Um homem apareceu um dia antes de partir se apresentou e informou que seria meu guardião. Escolhi seguir para o centro, pois sabia que lá haveria pessoas tão diferentes quanto eu e enfim estaria segura.
Wushi Gai como se chamava o guerreiro que me acompanhava me ensinou coisas que eu não conhecia sobre o mundo, viajamos por muito tempo e ele nunca questionou como eu havia perdido a visão e a sua falta de curiosidade me trazia segurança.
Depois de alguns meses chegamos a uma vila, estava muito feliz, pois tínhamos finalmente chegado ao centro e mais algum tempo chegaríamos às grandes cidades.
Subi para o meu quarto alugado na estalagem e fiquei imaginando que faltava pouco para realizar meu sonho e poder ver o mundo, não só meu mundo, mas todo ele. Neste divago pessoal quase não ouvi quando um estrondo e uma gritaria do lado de fora daquela estalagem começou, levantei e me afastei da janela, me aproximei da porta e me coloquei a ouvir. Havia também uma gritaria do lado de dentro da estalagem pessoas subindo e descendo, um estrondo cadente, alguém estava tentando invadir a estalagem, era isso?
Um estrondo mais forte, uma explosão definitivamente um cheiro de fumaça, o pânico começou a tomar minha mente, e antes que me pusesse louca, Wushi Gai irrompeu pela porta e disse que precisaríamos sair dali, e naquele momento pediu que tirasse a venda e que me preparasse.
Então tudo se fez claro, ele sabia sobre os meus olhos, sempre soube, então porque nunca havia comentado? Queria tanto ter tempo para perguntar, mas a os monges aprendem cedo, nos aprendemos sobre obter aquilo que nos e dado, e não tomar nada que não foi destinado a nos, ele sempre respeitou minhas escolhas eu também respeitaria a dele.
Tirei a venda e pela primeira vez observei o quarto, era simples como eu havia imaginado, mas as cores, as cores sempre me deixaram perplexas, as camas de pedras, as paredes de madeira, marrom e cinza, duas coisas rústicas que dispostas daquela maneira pareciam acolhedores, mas enfim, não era tempo para isso, me dirigi até janela e percebi com cuidado como chegar ao telhado.
Pulamos ao telhado e observamos tudo de lá, vimos vários monstros do qual o somente havia visto em desenhos do monastério, aqueles chamados de orcs. Havia um maior no fundo, que falava em uma língua estranha, apontando coisas como se ditasse ordens, havia muitas pessoas gritando e morrendo e o vermelho de sangue em todos os lugares, havia um guerreiro que lutava contra os orcs de maneira formidável, um guerreiro todo de negro, que fazia jorrar o máximo possível daquele sangue negro de orcs.
Estava observando quando ouvi assovios no ar, e percebi em desespero que alguns orcs usavam flechas, comecei a procurar um lugar para descer ao mesmo tempo em que Wushi falou:
Vamos pular naquele feno, ao cairmos você começa a correr em direção aquele floresta ao fundo e não pare até estar a salvo.
Eu simplesmente assenti um pouco entorpecida em descobrir que havia uma floresta, definitivamente meus olhos eram lentos demais para notar as coisas devido à inexperiência de ver as formas e cores das coisas.
Pulamos no feno e de coração partido deixei para trás, meu nobre amigo, briguei comigo mesmo por olhar não para trás, mas a vida é feita de lembranças e já tinha perdido uma grande lembrança quando não pude olhar com meus olhos tristes pela ultima vez o monastério, portanto desta vez eu veria meu grande amigo e guardaria esta lembrança dele, eu sabia que não voltaria mais a vê-lo.
Olhando para trás não vi Wushi, mas sim um anão que também corria em direção à floresta, eu não tive tempo para pensar, mas algo nele chamou a atenção de meus olhos, sua barba, sua barba era amarela, amarela não, ela era dourada.
Olhei por cima do anão, guardei na memória Wushi lutando, essa seria a minha lembrança, entrei na floresta e corri ignorando toda a resistência da minha mente que gritava para que eu voltasse e ajuda-se Wushi, eu nunca vou entender porque fiz aquilo, abandoná-lo e seguir em frente.
Cheguei a uma distancia segura, sabia que o anão estava vindo na minha direção, era impossível não ouvir aqueles passos, parecia que suas pernas eram de pedra.
Olhei para minha mão e vi o lenço, e pela primeira vez quis realmente colocá-los e não tira-los nunca mais, aquele definitivamente não era o mundo que eu queria ver, mas agora eu podia andar sem as vendas, pois o centro oferecia segurança  e então mais uma coisa alem da esperança de um bom mundo estava caindo, a esperança de liberdade, isso tudo que eu criei para mim era uma mentira, o mundo não era bom de ver e eu não estaria segura nunca em nenhum lugar.
 Parei e coloquei a venda.
Virei e aguardei aqueles passos de pedra chegar até mim. Junto com eles escutei mais três passos, fortes e descompassados, correndo em nossa direção, eram fortes mais não precisos.
O anão parou e se posicionou na minha frente, comecei a ouvir o barulho de metal contra metal e me posicionei esperando um ataque, e ele logo veio, mas antes que fosse atingida consegui ouvir o som do ar sendo cortado, desviei lentamente para o lado e consegui me esquivar.
Já preparada tentei imaginar aonde ficaria o baço, mas eles eram muito maiores do que eu havia reparado, e apesar de acertar aonde eu queria a força era fraca para causar qualquer dano suficientemente valido.
Antes que pudesse me preparar para um novo golpe, novamente senti os passos de pedra na minha frente e um novo metal contra metal e por fim somente a respiração pesada do anão.

Após algum tempo ouvi pela primeira vez a voz de Thormm, era baixa e grave.
A vantagem de ser cega é que apenas o som de uma voz, a forma de um caminhar, posso dizer em quem confiar, claro que às vezes erro, mas não desta vez, Thormm é firme como seus passos, transparente como seus movimentos e serio como sua voz.
Ele me perguntou se eu estava bem, e eu respondi que sim, conversamos sobre andar até a próxima cidade e ele começou a me guiar por dentro da floresta, quando chegamos a uma clareira havia uma mulher com uma voz exótica e vibrante, como se conseguíssemos ouvi-la por qualquer parte da floresta, e também havia um som de uma ave, era um pio de uma coruja.
Ela nos orientou caminhar até a próxima cidade e procurar por Brayan ou Gehard, então continuamos até chegar à próxima cidade, paramos numa estalagem, contamos ao prefeito o ocorrido e descobrimos que Brayan era filho dele, mas que estava em missão e quando voltasse iria nos procurar, voltamos para a estalagem, e aguardamos. Durante a tarde fomos avisados de que um samurai havia chegado, corri, pois sabia que era Wushi , mas quando cheguei lá ele já estava em seu leito de morte. Segurei sua mão e agradeci a qualquer Deus que existe, por ter olhado para trás naquele vilarejo e por ter guardado o rosto de Wushi lutando e não morrendo como agora ele estava. Ele disse que precisava limpar sua honra, mas eu não entendia o que ele dizia, algumas lágrimas brotaram no meu rosto e eu mais uma vez, agradeci por ser cega, parece que eu sempre trago desgraça e destruição, afinal era isso que eu queria ver? Orcs e a morte do meu grande amigo?
Ele disse que meu avô era o senhor da Familia de Washi Kowai Azuma e que eu deveria voltar para o oriente para limpar sua honra que em um momento de loucura ele havia perdido e pedido para Wushi me matar quando eu era só um bebê. Naquele momento eu poderia sentir raiva, ódio, tristeza ou felicidade por descobrir que eu tinha uma família.
Mas aquele momento não era sobre mim, era sobre Wushi e ele havia acabado de morrer enquanto eu divagava sobre o que eu deveria sentir sobre uma familia, senti frio que percorre o ar quando as pessoas morrem ,tateei até encontrar seus olhos e os fechei, pensei sobre tudo o que havia me dito e decidi que aquilo não faria diferença, meu avó não existe, sou uma maldição, uma desonra, e maldições não tem famílias e isso é tudo. Thormm perguntou sobre Wushi, e quais eram os rituais de morte do oriente, apenas respondi que ele havia terminado sua missão e queimamos o corpo.
Já de noite apareceu Brayan, ele tinha uma voz engraçada e parecia um tanto perdido no seu caminhar, como se não soube o porquê estava ali, então explicamos que a mulher na floresta disse que era para procurarmos ele.
Ele ofereceu ao Thormm um trabalho de ir até a torre leste da cidade e averiguar se estava tudo bem, pois depois que tínhamos contado sobre a invasão dos orcs todos estavam com medo. Thormm aceitou e eu mais do que depressa aceitei também, mas começou um debate, porque claro, eu sou cega e como sempre sou somente mais trabalho para todo mundo cuidar, mas mesmo assim eu não abriria mão de segui-lo, eu perdi Wushi porque fui covarde e o abandonei, isso não aconteceria com o Thormm, então por fim decidimos que Brayan também iria, para cuidar de mim.
No dia seguinte acordei cedo e pude ouvir o ronco que parecia que iria perfurar meus tímpanos, puxei a venda um mais mínimo para conseguir olhar por ela novamente o anão a quem eu seguia, eu sabia que não devia, mas a curiosidade era maior e achei engraçado ele durmir de armadura com o machado tão próximo que poderia ser seu travesseiro,  parecia que ele estava pronto para a batalha. O que quer que Thorm tivesse passado em sua vida não era bom. Saí do quarto, me direcionei até o jardim e comecei minha meditação e meu treinamento diário.
Concentrei-me profundamente a tudo em minha volta e depois de algum tempo comecei ouvir aqueles passos confusos novamente, então a indecisão de Gehard não era porque não sabia o motivo de estarmos a sua procura.
Bom, comecei a pensar que talvez todos tenham segredos nesse lugar.
Ele me cumprimentou aguardamos Thormm acordar, tomamos café e seguimos em direção a torre leste.
Caminhei novamente com a ajuda de Thormm até próximo da torre leste, chegamos na porta e ouvi Gehard começar a circular a torre, comecei a ouvir alguns cochichos atrás da porta, mas não importava o quanto batíamos ou chamávamos ninguém abria.
Comecei a ficar curiosa, pois se haviam pessoas lá dentro, porque não respondia?
Thormm também ficou impaciente e arrebentou a porta com uma pezada. Então de dentro do lugar do lugar ouvi três conjuntos de passos, parecidos com o de Thormm mas não tão firme.
Eles começaram a gritar que Thormm era um assassino e por mais que Thormm dizia de queria conversar o metal começou novamente a bater com metal, disposta cumprir minha promessa e não abandoná-lo ataquei o outro oponente, Thormm gritou que aquela luta era só dele e se posicionou de uma maneira categórica na minha frente, teria me acertado se eu não tivesse desviado, não porque ele quisesse me acertar, mas porque perdeu o equilíbrio e caiu, eu sabia o que era respeitar a luta de alguém, mas também não poderia deixar ele ser acertado caído, entrei na frente dele e gritei:
- Ele está caído, espere ele levantar para que vocês tenham uma luta justa
Não houve trégua, um novo grito de assassino e um novo ataque, me preparei, senti o sentindo do machado esquivei lentamente,  foi tempo suficiente para que Thormm levantasse e tomasse a batalha para si, depois de muito barulho de machado, ouvi novos passos e entraram novos “passos-de-pedra” na batalha.
Depois de alguns segundos, que pareceram horas, eu estava desesperada por tirar a venda e ver o que estava acontecendo ouvi Thormm cair, ouvi um silencio, abaixei e coloquei os dedos no pulso de Thormm. Vivo, ele estava vivo, ouvi Gehard dizendo:
-Vamos correr outros estão vindos.
Não iria deixar Thormm para trás. Posicionei-me na frente do corpo dele e aguardei, ouvi três pares de passos, eles pararam uma voz comentou algo com outra, eu estava tão concentrada que não ouvi o que disseram. Mas um par de passos voltou, então imaginei que mais iriam vir.
O homem pediu que eu saísse da frente dele e começou um debate
- Ele está desmaiado não deixarei vocês acertarem. Eu disse
- Ele é um assassino. O homem respondeu
- Se vocês querem puni-lo porque ele é um assassino, não podem  matá-lo desacordado vocês se tornariam assassinos também, e depois fariam o que? Iriam se matar? Eu gritei
- Ele matou o irmão e tentou matar o outro, nós chegamos antes. O anão respondeu
- Como sabe que ele tentou matar o irmão alguém viu? Eu gritava desesperada, eu sabia que nunca convenceria aquele homem, mas eu precisava me convencer que ele não era não podia ser um assassino.
- O irmão dele contou.
Bom então era isso, o irmão dele era um assassino, eu me forçaria a acreditar nisso. Por isso eu disse:
- Então quem garante que não foi o irmão dele?
- Porque foi ele fugiu com o machado que era do seu irmão.
Então eu me posicionei mais firmemente na frente de Thormm e apenas informei que eles teriam que passar por mim para chegar nele.
Neste momento ouvi algumas palavras que mudaram tudo:
- A ordem é para não deixarmos ninguém vivo.
Passos correndo na minha direção, machados zumbindo, desviei lentamente tentei atacar e de repente senti alguma coisa se enroscando no meu pé e subindo cada vezes mais, respirei para não me desesperar, agucei meus sentidos e percebi que o anão da minha frente também estava preso, todo esse poder vinha da direção de Gehard, lembrando da mulher na floresta, tive certeza que aquilo vinha dele, tentei me soltar, ouvia Gehard atirando alguma coisa nos anões, depois de alguns momentos que pareceram anos, aquilo começou a ceder e a batalha entre eu e o anão foi retomada, se aquilo pode ser chamado de batalha, no primeiro corte que levei no peito tive certeza que morreria, tive tempo apenas de sentir os passos leves de Gerard caminhar até Thormm atrás de mim, senti novamente aquele sensação, ouvi Thormm se levantando, foi quando recebi um novo golpe na perna e percebi que perderia a consciência, sabia que morreria feliz, não abandonei meu amigo para morrer.
Não sei quanto tempo fiquei desacordada, mas quando abri os olhos tive certeza que não tinha morrido, a dor e a exaustão estavam em cada centímetro do meu corpo, ouvi um par de passos de pedra, fiquei assustada, tentei falar alguma coisa e deve ter saído como gemido. Thormm disse:
- Achei que estivesse morrido.
- Eu também. Respondi
Ele pediu que ficasse com Gehard me disse que ele estava em situação complicada. Caminhamos, ou melhor, Thormm caminhou carregando Gehard e eu me arrastei para um quarto dentro da torre.
Thormm estava saído, pude ver como seus passos tinham mudado, ele não estava mais tão sereno, aquilo não era sobre a batalha era sobre sua família. E foi naquele momento que tivesse certeza que tinha feito certo em não deixar o anão atacá-lo desacordado. Famílias que confundem orgulho com honra. Então queria que ele soubesse disso, mas estava tão exausta, tão cansada, então só disse:
- Thormm, você ouviu muita coisa sobre mim, e eu ouvi muita coisa sobre você daquele anão, então só quero que saiba que está tudo bem, para mim não mudou nada.
- Obrigada. Thormm disse
Segurei a mão de Gehard e rezei para que aquela mulher da floresta pudesse salva-lo como fez comigo e Thormm.
Gehard era diferente, não se envolvia, mas por ser cega eu sei que nem sempre as pessoas dizem ou demonstram o que realmente sentem, ele tentou me salvar de todas as maneiras, ele ajudou Thormm e no final das contas era ele quem estava ali desacordado e a beira da morte. Por mais que ele fingisse não se envolver ele já estava envolvido, estar ali deitado mostrava que ele também já sabia disso.

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